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    Conto Interativo ou Só o Começo...


Durval Filho Durval Filho
Data de publicação: Primavera de 2004


O pensamento é uma energia que viaja no ar, é força que rompe barreiras e chega onde tem que chegar. A fé, por exemplo, é um pensamento muito forte; dizem, remove montanhas. E é verdade!

Sou o guardião do reservatório dos pensamentos de amor, sou simples arquivista do céu, estou acostumado a cada caso!!! Passo o tempo acompanhando tudo, inspirando alguns pensamentos ou arquivando, arquivando, arquivando....

Atualmente, estou guardando as reflexões do Ivan. Quero deixar claro que não intrometo na vida de ninguém, apenas observo, assim como vocês ao assistirem um filme. E, para superar a monotonia desse meu trabalho, torço pelo sucesso amoroso dos envolvidos nessa espionagem celeste, um verdadeiro Big Brother de Deus.

Olha lá o Ivan matando aula outra vez, saiu no último tempo pra ficar na esquina da escola, de bobeira, só pensando, observe:

“Quanta matéria chata neste terceiro ano do Ensino Médio. Tanta decoreba, fórmulas e macetes pra decorar, provas mensais, bimestrais, simulados, provas do vestibular... Pra que tantas provas se na vida ainda pouco provei de fato, de gostoso e de útil?”

Você que lê deve estar pensando agora: “ O que tem de sentimento amoroso essa história toda de aula chata, provas?...”

Acontece que isso tudo é apenas uma desculpa para o Ivan pensar na sua musa:

“Ah! meus pensamentos são só dela que é uma delícia. Um sorriso lindo que enfeitiça. Aliás, a alegria é um de seus charmes, com o qual se soma aquele ar de menina travessa, arteira mesma! Por isso seu estilo foge ao de uma menina bem comportada, tímida ou "patricinha". É muito inteligente, criativa e brincalhona. É jovem, cursa o primeiro ano, tem um encanto especial, será que ela vai ser sempre assim? Sinceramente! prefiro que não mude nunca, ou melhor, que mude da casa dela para o meu apartamento.”

“Sou um grande amigo, chego cedo na escola todos os dias só para nos encontrarmos antes do início das aulas, ficamos conversando, falando bobagens e sorrindo. Nessas horas fito seus olhos que são só o começo do meu viajar. Percorro cada centímetro do seu corpo, que já decorei todas suas curvas, seus gostos, suas manias. Gosto até de seus defeitos, só não suporto quando ela fala do namorado. Um papo sem graça, dos mais chatos, fico calado e escuto impaciente. O que me agrada é que ela fala pouco dele e quando fala é pra reclamar, dizendo que está cansada etc., aí eu aproveito, vou logo dando a maior força pra ela pular fora, me insinuo, fico todo assanhado. Antes de me empolgar muito, ela rapidamente me pergunta da minha namorada. Respondo que está tudo bem, blá, blá, blá...”

“Nessas horas fico bravo, deveria mentir, dizer que meu relacionamento não vai bem, deveria aproveitar a situação e pedir ela em namoro. Fico calado, mudo, respeito as mulheres que amo. Gosto das duas, e, assim, continuo sofrendo, desejando a jovem amiga com quem iria até o fim do mundo, só pra com ela me deitar. Faria tudo, desde que não fosse ilegal ou imoral, desde que não fizesse sofrer as mulheres que amo. Então fico em dúvida, aliás, dúvida não, se pudesse ficaria com as duas sem magoar nenhuma. Complicou, eu sei, é difícil né, um problemão!!! Coisas de um jovem inexperiente, com muito amor pra dar e hormônios em ebulição.”

Observaram como trabalho, vou arquivando tudo, tintim por tintim, não deixo escapar nada, sou eficiente no meu ofício. E olha que gosto do que faço. Às vezes me interesso por uma história; e essa é uma delas. O que vai ser do futuro desse caso de amor, hein?

Eu, embora trabalhe nas alturas, desconheço os mistérios do céu, olha que trabalho aqui há séculos, já arquivei cada história! Até hoje não sei se existe mesmo esse tal de destino. Espera um pouco aí... O Ivan começou a pensar numa declaração de amor:

“Como um foguete que parte para um planeta desconhecido e segue firme sua direção sem saber o que vai encontrar no destino; assim bate esse coração que ama você. O que fazer se você não sabe do meu sentimento ou, se sabe, dissimula. Você dissimula e eu não digo nada, feito mula empacada. Vai ver que é por isso que você dissimula. Só me restam as palavras, os sons das palavras e o som de sua voz imaginária a ninar meus pensamentos.”

“Ah! menina bonita dos olhos grandes, interrogadores, sorriso lindo e constante. Sorria de novo, vai, sorria pra mim, só ria pra mim e me ama. Ama de todas as formas, ama-me hoje, amanhã; ama-me agora... Se não for possível me amar como eu quero, intensamente. Ama-me só um pouco, do tamanho do mundo, um segundo, de um novo tempo, eterno. É... e seja terna... e seja fêmea, não efêmera. Seja minha, minha menina amorosa e real.”

Maravilha!!! Mandou bem o Ivan, eu até choraria de emoção. Sabe como é, aqui em cima, só trabalhando, trabalhando... Deixa pra lá. Não tenho nada com isso, mas acho que o Ivan imaginou uma bela declaração, não acha? Pensou bonito, mas será que ele terá coragem de se declarar de fato a ela?

Percebo que o Ivan sentia um misto de sofrer e alegria – assim sentem os homens apaixonados. Ele não queria se dividir, por isso decidiu multiplicar-se, queria amar mais, mais, mais... Então, para resolver esse conflito, tinha na sua arte a melhor terapia. E foi, deitado no divã da grama fofa, na sombra de um belo pé de ipê, dedilhar o violão pensando nela. Como bom compositor que é, resolveu compor músicas para o seu amor. Enquanto compunha imaginava:

“Morena linda de corpo sexy, suas roupas sabem ainda mais realçar sua beleza. Calça baixa, umbiguinho à mostra, blusa justa... caminhar mágico, andar feminino, uma maravilha...olhos, ah! olhos castanhos escuros que devoram e que amam por segundo outros olhos. Deixando o desejo ardente do querer mais... Mesmo quando seu olhar escapa do meu, aproveito e mergulho no vai-e-vem do arfar de seu peito, aprecio a dança de seus seios que são naturais e imponentes, diferente dos famosos siliconados da moda, artificiais.”

Enquanto pensava na sua musa, Ivan cantava uma letra, tocava o violão e criava a melodia. Dedilhava o instrumento com carinho, o mesmo que dedicaria ao violão da moça... e o som encantava e a letra saía. Sua voz ecoava na praça perto da escola. Sem ninguém por perto, ele cantava com verdadeira emoção e num momento de êxtase sente o coração palpitar forte, a respiração fica ofegante e o jovem compositor apaixonado faz arte. Faz arte na imaginação querendo fazer de fato, na real, num momento mágico e verdadeiro. Nada de fantasia.

Naquele dia, o namorado da jovem estudante veio buscá-la e cortou o barato do Ivan que ficou puto da vida. No outro dia, logo cedo, na aula de Literatura mostrou a letra para o professor que gostou do que leu e incentivou-o a continuar compondo. Isso o animou muito, fez com que Ivan corresse e fosse logo mostrar a letra para a musa que o inspirou.

Ela o incendeia, lê, diz que gosta, finge que não é com ela e nem dá bola. Finge que está com ciúmes... ora sorri... ora esnoba... ora não está nem aí... ora seus olhos o devoram...

E o nosso jovem compõe mais letras, cria mais sons, seu repertório aumenta e algo mais, sempre pensando nela. Tudo perfeito se os dois se entendessem, no momento não há sintonia no ar, os corações ainda estão verdes. Infelizmente, o amor ainda não se realizou... Como num jogo ou brincadeira, uma corrida de gato e rato, essa história ainda não terminou. É só o começo; o seu fim, esse sim, fica pra sua imaginação. Tenho que partir, é hora de trocar turno, o próximo arquivista já chegou e ele não gosta dessa história de poeta, escritor. Então agora é com você, ajude a continuar essa história, comece dando um nome à musa do Ivam e decidindo o que acontecerá com a história dos dois...

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Durval Filho é professor, poeta e escritor

durvalgfilho@hotmail.com

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